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Sobre a História da África

Trechos compilados a partir do livro História Geral da África I _ Metodologia e Pré-História da África. Editor J. KI-ZERBO.

A descoberta do Australopithecus (Latim australis “do sul”, Grego pithekos “macaco”) em 1924, na África do sul, província do cabo, deu início ao desmoronamento da teoria camítica.

“Seguiram‑se outras descobertas, que prosseguem ainda, tanto no norte como no sul da África, e em particular no leste, na Tanzânia, no Quênia e na Etiópia[…](p.298)

Na chamada teoria camítica, linguistas do século XIX, influenciados pela tese alemã de que o desenvolvimento da civilização africana se deveu a influência asiática, acreditavam que os povos Camitas, que teriam uma cultura superior aos negros, teriam vindo da Arábia e ido para o Sudão. Autores como Hegel, influenciou essa linha de pensamento na qual, dividiu o mundo em dois tipos de povos: históricos (que contribuíram para o desenvolvimento da humanidade) e não históricos (que permaneceram à margem desse desenvolvimento espiritual universal). Para Hegel foi na Ásia que a história da humanidade se iniciou, sendo posteriormente considerado pelos estudiosos europeus como o berço da humanidade.(p.296)

Figura 1: Teorias relativas as "raças" e à história da África | Jornal Cultura - Sapo Angola

As diversas descobertas científicas demonstram de forma cabal que a humanidade com toda a sua variedade racial se originou no continente africano. Estão presentes lá todos os estágios do desenvolvimento humano, com os respectivos utensílios da época: australopitecos, pitecantropos, neandertalenses e Homo sapiens. (P.298)

Houve desenvolvimento cultural endógeno, indiscutivelmente. O Neolítico, idade da pedra polida caracterizada pela agricultura e domesticação de animais, remonta a uma época anterior ao que se imaginava.

[…] em Tadrart‑Acacus, na fronteira entre a Argélia e a Líbia,[…]. O exame das lareiras e dos fragmentos de cerâmica aí descobertos demonstra que a cerâmica já era utilizada desde 8000 anos B.P.[…](p. 299)

Figura 2: Cerâmica Africana | Castelo de Paderne

Estima-se que no ano de 13000, a partir de restos orgânicos encontrados na baixa Núbia, já se praticava a colheita e a preparação de grãos de cereais selvagens. Outras análises de vestígios fósseis, por radiocarbono, constatou que no vale do Nilo a vegeocultura foi praticada 4000 mais cedo que no Oriente.

Figura 3: Cereais e Grãos | Viva : A zona cerealista

Costuma-se referenciar-se ao Egito como início da história da África, que constituiu a região de desenvolvimento da civilização faraônica. Mas isso se deu por volta de 5000 a 6000 A.C aproximadamente e, bem antes disso, já havia criação de gado e protocultura. Significa que está área do Egito, denominada Crescente Fértil, que também inclui a palestina e a Mesopotâmea,  

[…] representa apenas o desenvolvimento final e o testemunho de um vasto domínio fervilhante de vida, onde os homens iam aos poucos se familiarizando com as gramíneas selvagens, passando a domestica‑las assim como ao gado de grande porte, ovinos e caprinos. Esse cenário grandioso é atestado pelo estudo de pinturas e gravuras rupestres do Saara, pela datação obtida por radiocarbono, pela análise de polens fósseis, etc. (p.300)

Figura 4: Galeria de Arte do coração do Saara | Civilizações Africanas

A África foi um polo de disseminação de homens e técnicas no período Paleolítico Inferior (4,4 milhões de anos até por volta de 250 mil anos).

Geografia histórica: aspectos físicos

“Vastas zonas da África repousam sobre massas rochosas classificadas entre as mais antigas do planeta. […]Entre as mais importantes dessas formações, convém destacar as da zona cuprífera do Shaba (Zaire), cuja extensão ultrapassa 300 km […]. Esta zona contém não só as maiores jazidas de cobre do mundo, como também algumas das mais ricas jazidas de rádio e cobalto.[…](p.368)

[…]A zona diamantífera africana não tem correspondente no resto do mundo. É na África do Sul que atinge sua maior concentração, embora haja outras jazidas na Tanzânia, em Angola e no Zaire. A África do Sul, Gana e o Zaire possuem minas de ouro; o estanho é encontrado no Zaire e na Nigéria. Ressaltemos também a presença de importantes jazidas de minério de ferro na África ocidental, como as da Libéria, da Guiné e de Serra Leoa. Somente a Guiné possui mais da metade das reservas mundiais de bauxita, minério de alumínio.[…] (p.368)

No período pré-histórico os minérios de importância capital para o desenvolvimento humano foram os minérios líticos, de estrutura homogênia e grande dureza. As rochas denominadas ígneas foram a base da indústria paleolítica capsiense do Quênia, que produziu longas lâminas e diversos utensílios microlíticos. No Zimbabwea indústria mesolítica bambata consumiu grandes quantidades de calcedônia.[…] O quartzito, dentre todos o mais difundido na África, foi a base das indústrias acheulenses do Paleolítico. […](p..369)

O basalto, o dolerito e o diorito foram utilizadas na confecção de machados e enxós, pedras de arremesso, pontas de flechas e recipientes de pedra. A argila foi a base da indústria da cerâmica remontando o Mesolítico. (p.369-370)

Construíram-se moradias utilizando-se o barro em substituição ao gesso. Os minerais forneceram pigmentos para as pinturas rupestres, eram obtidos por meio da trituração de diferentes tipos de rochas, como a hematita, o manganês e o caulim, misturando‑se o resultante com elementos gordurosos ou resinosos. (p.370)

A metalurgia do ferro, fundamental a sociedade no final do período pré-histórico, tão logo descoberto, difundiu-se por todo o continente, em contraponto ao cobre e ao estanho. É necessário salientar a existência de uma idade do cobre na Mauritânia, pelo menos cinco séculos antes da Era Cristã. (p.371)

No campo da agricultura, além da caça e da coleta, técnicas de cultivo e raspagem, pá, estaca, cercas, armadilhas de caça usando a madeira eram comuns no paleolítico inferior. (p.372)

[…]os machados cortantes e encabados, como os encontrados nos arredores dos rochedos do Mwela, no norte da Zâmbia, tenham servido para extrair a casca das árvores e prepara‑las para a confecção de roupas, recipientes e cordas. A partir do Mesolítico, principalmente, os produtos vegetais passaram a ser utilizados na construção de abrigos, que substituíam a habitação nas cavernas. Assim, com galhos de árvores, colmo e palha trançada, construiu‑se o corta‑vento mesolítico, cujas ruínas encontradas em Gwisho Springs datam de meados do III milênio antes da Era Cristã. […] (p.372)

[…]No Neolítico, especialmente nas zonas onde havia sido descoberta a agricultura, multiplicaram‑se e difundiram‑se abrigos feitos de matérias vegetais e, às vezes, de barro e vegetais. Constituem, sem dúvida, o marco inicial do domínio cultural do homem sobre a paisagem. (p.372-373)

Na Savana africana entre os IV e o II milênio antes da era Cristã, Grande número de cultígenos constituíram o “complexo da agricultura com sementes”. Aclimatações empreendidas na floresta africana, faziam parte da vegecultura, que inclui o preparo do broto, mudas, rizomas ou tubérculos, nas quais uma das mais importantes, foi a do inhame (Dioscorea spp), do qual inúmeras espécies são atualmente cultivadas. Outra planta domesticada na mesma região foi a palmeira‑do‑azeite ou dendezeiro (Elaeis guineensis).

[…]Com a agricultura, o africano se abriu a inovação derivada da difusão de cultigenos de outros lugares. A África deve à Ásia e à América do Sul bom número dessas novas culturas. […] (p.373)

O fogo já era empregado pelo africano há 60.000, no início apenas para sua proteção, para a confecção de utensílios e nas caçadas. Com a descoberta do cultivo, era natural que o homem usasse o fogo também para eliminar a vegetação nociva. (p.374)

[…]A extraordinária riqueza e variedade da fauna terrestre forneceu uma enorme reserva potencial de animais domésticos. Contudo a domesticação de animais na África restringiu‑se praticamente ao jumento, ao gato, à galinha‑d’angola,ao carneiro e ao boi. Essa modesta performance deve‑se à influência, durante o Neolítico, de métodos mais antigos e eficazes experimentados na Ásia. […] (p..377)

Também verificou-se o papel da arte (estética) a serviço de uma ética. As máscaras de povos africanos tinham significados religiosos, festivos e financeiros. (p.390-391)

Ressalta-se o papel da tradição oral para as pesquisas sobre África. São balizadores importantes para as escavações arqueológicas e interpretações de documentos, livros de histórias, mapas geografia, etc. Verifica-se também a rica tradição do tambor e da música que, ao ser exposta a invasão de músicas mais pobres de estados mais ricos, acaba empobrecendo.(p.392)

Reinos Africanos

Trechos compilados a partir dos artigos das autoras LIMA, Mônica. Reinos da África e MACEDO, José Rivair. História da África.

Muitas pessoas acham que a Africa é um único país, mas o que não sabem é que é um continente maior do que a América do Sul. Reúne 54 países com riquezas culturais muito diversas e alguns deles já foram reinos ricos e poderosos.

Há vários séculos atrás, antes dos primeiros portugueses chegarem na África, existiam comerciantes africanos que atravessavam o deserto do Saara para levar seus produtos de um lugar a outro. Era feita a comercialização de vários produtos, mas os mais valiosos eram o sal e metais preciosos. Nessa época a África era conhecida como “terra do ouro”.

Os comerciantes africanos precisavam fazer diferentes rotas de comércio para conseguir vender seus produtos e, as mais utilizadas, eram a saída de Marraquexe que passava pelas minas de sal de Tagaza e chegava até o antigo reino de Gana. Outras rotas que também eram importantes eram a que ia de Túnis à terra do povo hauças e também a rota de Gao até a cidade do Cairo.

Figura 5: Principais rotas de comércio na África durante a idade média | Mapa Nato Gomes

Nas rotas do Saara com o crescimento do comercio, muitas localidades africanas ficaram ricas e poderosas, iniciando-se novos reinos, que eram favorecidos por terem acesso e controle do ouro e o sal. Os mais conhecidos entre eles eram Gana, Mali e Songai.

Império de Gana

Sendo o mais antigo império que se conhece, foi fundado no século IV e teve conquistas de uma grande área onde exerceu dominação política e econômica.

No início Gana era como chamavam o governante que atribuía sua soberania aos povos dominados, que conheceu os bons tempos quando o poder esteve sob o controle da dinastia Cissê Tunaka.

O centro econômico deste império fundamentava-se no recolhimento de impostos dos povos conquistados e através de atividades de subsistência como pesca, pecuária e agricultura. Eles tinham um grande exercito e também uma grande variedade de funcionários.

Devido a localização e ao poder hegemônico, o fluxo comercial era contínuo e conseguiam explorar uma grande região de comercio, como o cobre, cauris (os búzios), tecido de ceda e algodão e o sal, que eram trocados por marfim, escravos e ouro.

Com tudo isso, esse império conseguiu se manter até o século XI, quando foram derrotados por tropas de cavaleiros e muçulmanos do Marrocos que estavam em guerra contra os pagãos que era o caso do povo de Gana.

Figura 6: Império de Gana | Profissão História

Império de Mali

Após a caída do império de Gana, varias desavenças por influência ocorreram entre os estados menores, paralelos e independentes. Um desses era formado pelo povo conhecido como sosso, de etnia Soninke.

O império de Mali era constituído pelos povos que estavam presentes na região situado entre o Rio Senegal e o Rio Níger. Dentre esses o mais importante eram os povos mandingas, mas além dele existiam outros povos que formavam este império como soninkês, os fulas, os sossos e os bozós.

Alguns importantes fatores contribuíram para a hegemonia do Mali na África Ocidental, alguns deles eram a formação de um poderoso exército, o controle na extração do ouro e a existência de uma administração eficiente. Isso fez com que o Mali se tornasse um dos impérios mais bem sucedidos do continente africano.

Mansa era como chamavam seu representante supremo. Ele residia na cidade de Niani, ao norte da atual República de Guiné. O apogeu da dinastia Keita ocorreu no século XIV, durante o governo de Kankan Mussa, o Mansa Mussa. Mas no final do século XIV, o império enfrentou dificuldades em manter uma área tão grande e entrou em processo de declínio.

Figura 7: Império de Mali | Wikipédia

Império Songai

O Império Songai está relacionado com a cidade de Gao, localizada na curva do Níger. E sendo um importante centro comercial, político e econômico, com poder militar de arqueiros que se lançavam ao Rio Niger.

Até o século XIV Gao estava sob o poder do Império Mali, mas no século XV conquistaram Tombuctu, um importante centro do Islã e ponto fundamental do comércio pelo Saara. É neste momento que ocorreu a formação do Império, num processo de expansão militar, liderados por Sonni Ali, que além de tomarem Tombuctu, conquistam também Djenné. Tinham práticas religiosas politeístas e aprimoraram as experiências do império que os sucedeu – o Mali, incorporando elementos dos impérios anteriores.

Exploravam ouro, sal e cauris e estabeleceram uma unificação de pesos e medidas que facilitava a cobrança de impostos e as trocas comerciais. Com uma grande extensão territorial, o Imperio Songai tinha um comércio bem organizado e um sistema de governo centralizado. Eram divididos entre uma elite e a população geral e suas cidades mais influentes eram Tombuctu, Djenné e Gao.

Figura 8: Império de Songai | Wikipédia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS